sopra

Por entre os fios da cidade, bem na porta de casa, apareceu uma pipa. Era uma pipa delicada, como se feita por alguma menina atrevida. E era tanta cor misturada que dava a impressão de mudar de figura conforme o vento passeava em suas laterais.

Quis roubar aquela pipa pra mim.

Mas não tinha escada, nem corda, nem nada. Só tinha eu, que nunca tinha empinado uma pipa. Só tinha eu, que não sabia nada de pipas.  

ju

amar(elo)

Lá no sítio da minha avó tinha um canarinho amarelo. Ele morava numa gaiola retangular e comprida muito escura. Quando visitava a minha avó, visitava também ao canário.

Um dia resolvi passar um dia inteiro olhando aquele pássaro. Observei cada movimento seu e fiquei muito aborrecida. Era um bichinho que só fazia saltar. E quando cantava usava sempre os mesmos agudos ternos, o que para mim soava especialmente artificial.  

Naquela época eu já suspeitava que aquele canário, como minha avó, levava a morte dentro de si. Ele a guardava junto ao peito, da mesma forma que o fruto tem as suas sementes.

Um animal tão lindo definhando aos poucos, numa resiliência própria aos que já desistiram. Ao mesmo tempo eu, que tinha só o horizonte a frente, também não me movimentava. Afinal estava ali sentada, imersa na infeliz comparação. Se apenas a confiança me fosse uma virtude construída… Se ao menos tivesse corangem para julgar o errado e agir sobre ele. Era uma sensação insuportável.

Me deu vontade de gritar. Levei os olhos à gaiola em busca do vulto amarelo em movimento. De algum jeito eu só pensava em arrancar à força aquele coração tão pequeno, batendo muitas vezes mais rápido que o meu. Eu queria comer aquele canário e vomitá-lo em amarelo ocre. Que ao menos fosse uma cor sincera.

Então o canário parou. Empoleirou, escondeu a cabeça redonda debaixo da asa e respirou fundo. Pareceu resoluto de repente, como se a gaiola fosse um destino agradável. E pela primeira vez fui simpática ao passarinho. Queríamos mesmo ganhar o mundo?

Para o canário seria uma mudança total. A partir do momento em que a gaiola deixasse de existir viriam todos os desafios da sobrevivência. O alimento e a segurança já não seriam dados. Mas e o amor, e o bater de asas que explode a própria essência? O dilema do partir.

No meu caso, poderia também assumir os riscos de uma empreitada desprendida, mas a iminência do fracasso ainda me apavorava. No fundo éramos iguais. E já o considerava um amigo.

Foi então que me comprometi àquela entrega incondicional e constante. Iniciamos uma parceria que não precisava ser assinada, que existia por vontade genuína, por um impulso recíproco e voluntário. E embora não houvesse nenhuma certeza de sintonia por parte do canário, decidi acreditar que sim. Era um laço, uma forma de não nos sentirmos sozinhos, de encontrarmos forças para seguir em frente. Abri a portinha da gaiola, coloquei a mochila nas costas e parti. 


ju

pra depois

Eu queria amar você

e teria sido lindo

mas eram tantos os contextos

e tanta gente dizendo não

que foi ficando pra depois

e pra depois

até que nunca aconteceu.


ju

O mistério

A questão é que não tem mistério, as pessoas são sempre comuns. Mesmo aquelas que estão cercadas pela fama, pela beleza ou algo que as deem algum “brilho especial” são mais humanas do que parecem. Ao aproximar-se o suficiente, dá pra notar que nos olhos de cada um existe medo, existe fraqueza, existe uma ponta de tristeza. Não adianta me vir com o discurso de que só há gente chata e desinteressante. Nem insista em dizer que as pessoas fantásticas e surpreendentes estão ali na área vip. Não estão. É tudo uma questão de perfil e é provável que os tipos aclamados pela maioria simplesmente não te tragam felicidade.

É engraçado isso de querer cortar caminho por toque de Midas. Quem quer glória ou reconhecimento pensa no fim, se esquece de gerenciar o presente. Não que esteja errado lutar pelo extraordinário, de jeito nenhum. Só quem mira no céu acerta as estrelas. Mas é preciso lembrar de que o bônus (ou o ônus) é sempre consequência.

Se a busca em si não for algo que parta de um desejo maior que simplesmente encontrar pessoas incríveis e viver uma vida fabulosa e libérrima, será totalmente frustrante. Que encontremos antes de mais nada os nossos verdadeiros perfis, os nossos propósitos, os nossos porquês e os nossos como. A vida tem que ser mais simples, quem sabe os nossos sonhos também.

Ju

Sobre essa coisa dos rótulos

Sempre fui um ser genuinamente ambivalente e lutei a vida inteira contra isso. (In)justamente como se cometesse uma afronta a um Deus que possui tantos aspectos complementares dentro de si mesmo. Sabe aquele reforço dos pais para que a gente se encaixe, para a que a gente se defina e cresça como as árvores, numa só direção? Acontece que não somos araucárias milenares em busca de um único sol.

Tudo culpa desse padrão mental concretado no “ou”. Ou banheiro masculino ou feminino, ou balé ou futebol, ou vestido ou calça, ou hetero ou gay – um verdadeiro saco. E eu, que sempre fui muito mais inclinada ao “e”, ficava numa eterna luta pra me encaixar em algum lugar, procurando por rótulos em que me sentisse confortável. O fato é que nunca estive muito satisfeita com eles, embora tenha me deixado levar diversas vezes pelas circunstâncias.

O problema do rótulo é que ele não dá conta do todo, fica aquela sensação de falta e isso acaba sendo causa de um grande mal estar. A situação é ainda pior quando os lados estão equilibrados, já que aparentemente o mundo espera por uma resposta. Daí vem alguém e dá um nome a esse meio do caminho, o que cria outra legenda… Surgem os bi-alguma coisa, os meio-algo que não se sentem aceitos por nenhuma das opções anteriores. Tão triste.

Talvez o grande desafio seja concentrar todos os esforços na construção de um novo modelo de identidade, em que se possa assumir diversos papéis ao mesmo tempo. Que concordemos apenas com o ser humano. Não mais o homem reduzido a um manual com um fim a ser atendido, mas um indivíduo que se alinha ao mundo por suas características, gostos e hábitos escolhidos conforme sua essência.

Fico com a sugestão de Jung: sou eu própria uma questão colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta; caso contrário, estarei reduzida à resposta que o mundo me der.

 

Ju

Mônada

Liguei pro Jorge, aquele amigo meu que sempre topa qualquer parada. Perguntei se ele teria interesse em começar comigo uma empreitada meio louca. Da Paulista até o Ibirapuera. Sabe aquele caminho, virando à direita na Brigadeiro? Lá tem um terreno, tão feio o coitado. E eu tinha um plano.

Ele atendeu, respirei fundo e expliquei a minha comoção. Em resposta, ele disse:

- Vamos fazer, vamos fazer!

Mas está lá em Washington.

Depois liguei pra Carla, menina bonita dos punhos de ferro. Essa sim gostava de ver estrelas. Ela entenderia… Contei tudo, tudinho. Então esperei do outro lado:

- Vamos fazer, vamos fazer!

E ela ia. E ia.

Mas não tinha GPS, nem mapa, nem estrada. Ia, até que não foi mais.

Pensei em chamar a polícia, mas achei muito careta. Daí cogitei convocar algum padre meio santo, pra ver se tinha uma benção que resolvesse o problema. Desisti.

A partir disso só lembrei-me dos palavrões. De todos, o que eu mais gostava era “puta”. PUUUUTA, eu gritava. Meretriz, vagabunda, rameira. Nenhuma das alternativas explodia tanto quanto a primeira, e como era bom.

Eu tinha o plano, só me faltava a companhia.

Foi então que fiquei arrependido. Tanto estardalhaço por não ter alguém a quem recorrer, e tinha. Não era o melhor amigo dos homens, que às vezes falha mesmo… Era uma mulher, não minha porque as pessoas só pertencem a elas mesmas. Mas alguém que eu me deixava cair nos braços mesmo se me desviasse o olhar. Essa sim sabia falhar, mas continuava ali. Bem dentro, bem fundo.

E era pra ela o plano, sempre tinha sido. Peguei um graveto e arranhei a terra seca do deserto marrom do terreno. Era um círculo grande, com um pequenininho no meio. E era eu, e era ela.


Brincando com o texto do meu camarada Thiago Romano! THOR.

www.daquidecima.wordpress.com/thor

Ju

ou nunca, ou nunca mais.

Já não vago mais. Foram muitas as mudanças e meus olhos andam fixos numa ideia única. Sou pra mim e sei quem sou. Rompi sim, e como cascata que segue a ordem do mundo, lambi cada pedra incansável até restar apenas o que havia de mais bruto, de mais meu. Aos meus outros, meus queridos outros… o adeus. Perdidos no nós uno que agora agarro em posse. Quem sabe venha o tempo em que se esgotem os motivos para tamanha altivez. Ressurgirá como que por surpresa boa a vontade de escutar não a marcha de formigueiros hierárquicos, mas o galope em descompasso de cavalos selvagens. Que sejam homens e não soldados.

Quanto às saudades, somente as suas insistem em me causar tormento. Experimento a falta do que não foi, do que passou por equivocado. Vulnerável é a caminhada eremita ao que de longe desperta a memória. Quem sabe um dia por aqui, quem sabe um dia por aí.

em breve… em breve… ou nunca, ou nunca mais – daquela forma. mas de outras tantas maneiras.

Estou quieta agora. Os braços estendidos servem apenas para tatear os espaços ainda desconhecidos. Talvez seja por isso que meus ombros se mantêm relaxados, e só. 

ju

com.única

Tudo comunica. A escolha da paleta de cores do guarda roupa, o corte do blazer, a maneira como o cabelo esvoaça contra o vento, os trejeitos, os gestos, o tom, as palavras. Quando me choco com o mundo, vestida dele mesmo, digo quem sou, digo a que vim. Experimento, experimentam-me. Comunicação é exercício de identidade.  

ju

a menina

Quero a menina à moda antiga, que me sorria com os olhos e que apareça às vezes com flores nos cabelos. Aquela menina que assobia junto ao vento à procura de vaga-lumes. Quero a menina que dança, mesmo sem jeito, que saiba canções antigas e que se lembre de velhos ditados. Quero a menina que conta estrelas. A menina que vê beleza nas coisas simples e se interessa pelos mistérios do mundo. Quero a menina que me transborde, que me acorde com beijos e me nine, já de noitinha, em braços cansados. Que goste de vestidos e se encante em tirá-los. Quero a menina que sabe que é preciso ser mulher.

Ju 

inspero

Sobre aquele compartilhar, que começa nas extremidades dos dedos esquerdos e explode nas costelas, sinto falta todos os dias. Dá vontade de confiar mais no olhar que distingue, mas minhas multidões são cada vez maiores e mais áridas de você. Já nem sei mais se te busco ou se espero chegar. De qualquer forma, enquanto as Florbelas e os Vinícios se mantém recostados nas minhas verticais, amplio o que há de melhor em mim. Me doo mais quando posso ser de todos.  

ju